Saí das Bibliotecas da Câmara Municipal de Lisboa há cerca
de 5 anos. Mesmo assim acolhi quase como um murro no estômago, a notícia da decisão
da equipa que actualmente (des)governa a autarquia ,de esbulhar (sim eu conheço
toda a carga anímica dessa palavra e foi intencionalmente que a utilizei) o já
tão sacrificado património cultural dos lisboetas.
Não podemos, não devemos, perder de vista o equilíbrio, e
comparar a decisão do dr António Costa de entregar uma boa parte das
Bibliotecas da Rede BLX às juntas de freguesia, àquela decisão dos responsáveis
pelo 3ºReich em queimar todos os livros dos autores que não seguiam o regime
vigente. Seria entrar no fanatismo, e não corresponderia à realidade. Mas que tal
decisão anda lá por perto, anda!
Também não há a intenção de menosprezar os responsáveis
pelas Juntas que irão acolher as
referidas bibliotecas. Quase de certeza que farão o melhor que puderem para as
manter e engrandecer. Mas é sabido que a nível de Estado, o orçamento se
contrai de cima para baixo.
A nível de governo central existirão umas poupançazitas nos
gastos. A nível de ministérios e serviços desconcentrados existirão umas
poupanças maiores. A nível de câmaras municipais, vão ser cortes a doer. E as
juntas serão como sempre as eternas sacrificadas, para quem nunca resta
dinheiro. A decisão camarária visa sacudir do capote os problemas financeiros que
tem, custe o que custar. Lavar as mãos, como Pilatos, e como Pilatos
indiferente aos dramas que irá causar. Porque é pacífico o entendimento, para
quem conhece as bibliotecas deste país, que algumas das oito “condenadas à
morte” irão a médio/longo prazo encerrar por falta de verbas. E se assim não
for, pelo menos terão todas elas mais agudizado ainda, se tal já é
possível, o problema com que as
restantes se debatem: a morte intelectual: há quantos anos não se fazem compras
de jeito nas Bibliotecas deste país? Entramos numa, e quase só encontramos ao dispor
livros de há 2 anos atrás! Raríssimas novidades.
Se não estou em erro (e posso estar) as bibliotecas da câmara
municipal de Lisboa, iniciaram-se algures por volta do ano 1929, com aquela que
é hoje a biblioteca central. Desde 1929, com esforço e muita dedicação por
parte dos seus profissionais, foi evoluindo, com altos e baixos, até ter a
quase vintena de equipamentos que tem hoje e constituem a rede BLX.
Não importa aqui saber qual é o partido político do dr
António Costa. Eu utilizaria estas mesmas palavras quer ele fosse de extrema esquerda quer de
extrema direita. Estamos a falar de uma determinada situação e não de política,
sendo circunstancial que a decisão seja política neste caso. Ao decepar da
forma que o vai fazer logo 8 bibliotecas de uma só penada, o actual presidente
da câmara elegeu-se a ele próprio como o pior presidente da câmara de lisboa
desde 1929!| e cuspiu no rosto dos profissionais que há anos, e alguns há
muitas décadas vêm dando o melhor do seu esforço, sacrifício e privações, para
engrandecer a Cultura em Lisboa.
Não sou fanático nem sou fã de “partilhas” na internet. Mas creio
que em vez de gritos de histerismo, cenas de confronto físico e outras posturas
menos sociais, ficaria mais bonito se todos os amantes da cultura em geral, se
todos os leitores de todas as bibliotecas, se todos aqueles que irão ser
prejudicados com esta decisão, se todos aqueles que não irão ser directamente
prejudicados, mas acham errada a decisão usassem discretamente ao peito um laço
negro um um emblema de um pequeno livro em negro, como forma de luto digno. Dignidade
é a palavra chave para os bibliotecários! Toda a vida servimos! E servimos com
dignidade, esperando muito pouco ou nada em troca. Se a cultura vai ficar mais
pobre, se o luto tem de ser feito, que o seja de forma digna e de cabeça
erguida! Não apelando a revoltas populares, mas não esquecendo também jamais o
gesto deste presidente. Que pague nas urnas, a seu tempo, um pesado preço pela
decisão. Que todo e qualquer amante da cultura com C grande, mesmo que seja ps,
vote noutro candidato ps, e nesse não.
Aos meus amigos de muitos anos dentro das BLX, aos
conhecidos e a todos aqueles a quem a angústia da incerteza aperta o peito
quero dizer-vos hoje: estou em pensamento convosco!