quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Anatomia de um amor


Ao entardecer de noites de verão ardentes, ou ao entardecer precoce de frias noites de inverno, sento me à entrada da barraca que com carinho fui acrescentando, e acendo uma pequena fogueira para cozinhar o que tiver nesse dia. Depois inicio o ritual quase religioso de limpar bem as mãos e ir buscar estes cadernos que conservo bem protegidos. À luz das labaredas ou à luz mais suave de um entardecer de estio, leio pela enésima vez os mail’s de Maria. Este é agora um amor calmo, perdido que foi o fogo ardente da paixão. Já mal me recordo do arrebatamento desesperado que me fazia arranhar as mãos, soluçar e beber até à inconsciência, numa tentativa fútil de atenuar a sua ausência.

Maria agora está comigo. Na minha alma e recordação. Envelhecemos lado a lado, como um só. E sobretudo, em paz. Onde quer que esteja e o que quer que esteja a fazer, andará ad aeternum dentro de mim. Às vezes imagino-a, de avental, numa cozinha, a dar um pedaço de pão a crianças irrequietas que correm e saltam à sua volta. E imagino aquele sorriso meigo, misterioso, mas sem o sarcasmo que Da Vinci incutiu à sua mona lisa. Feliz com algum homem que lhe dê mais do que eu soube dar. Mas nunca, jamais tão amada como o foi por mim.

Lentamente, nesta noite, abro o caderno numa página à sorte. Respiro fundo, sentindo a brisa que sopra do mar, e o roxo desmaiado em que se torna a morte do sol e a vinda de mais uma noite. Baixo os olhos para as páginas mágicas que tenho no regaço e leio:

“ Não há dia, não há noite, não há hora em que eu esqueça o sabor dos teus beijos. Talvez um dia, meu amor, daqui a meses ou a anos, quando estiveres menos mergulhada nesse horror a que se chama vida diária; quando viveres a tua vida com mais urgência, porque a morte já ronda e espreita ali à esquina; quando desejares ter mais anos e eles tos são negados. Talvez nesse dia alcances totalmente aquilo que senti-desejei-e tive a sorte de poder viver um pouco.”
in "ANATOMIA DE UM AMOR"

Finalmente vai ser editado o meu primeiro romance. A todos os meus amigos e conhecidos que o desejem adquirir, informo que o poderão fazer a partir dos primeiros dias de Fevereiro, ou então enviando-me desde já um mail a solicitar que eu o envie pelo correio.  Para isso enviarei o meu NIB aos interessados, para que possam proceder à transferência em qualquer multibanco. O custo será apenas o do preço de capa, eu ofereço os portes de correio(em Portugal), e será enviado com uma dedicatória pessoal e devidamente assinado. Contactem-me!

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Em defesa da cultura


Saí das Bibliotecas da Câmara Municipal de Lisboa há cerca de 5 anos. Mesmo assim acolhi quase como um murro no estômago, a notícia da decisão da equipa que actualmente (des)governa a autarquia ,de esbulhar (sim eu conheço toda a carga anímica dessa palavra e foi intencionalmente que a utilizei) o já tão sacrificado património cultural dos lisboetas.

Não podemos, não devemos, perder de vista o equilíbrio, e comparar a decisão do dr António Costa de entregar uma boa parte das Bibliotecas da Rede BLX às juntas de freguesia, àquela decisão dos responsáveis pelo 3ºReich em queimar todos os livros dos autores que não seguiam o regime vigente. Seria entrar no fanatismo, e não corresponderia à realidade. Mas que tal decisão anda lá por perto, anda!

Também não há a intenção de menosprezar os responsáveis pelas Juntas que irão acolher  as referidas bibliotecas. Quase de certeza que farão o melhor que puderem para as manter e engrandecer. Mas é sabido que a nível de Estado, o orçamento se contrai de cima para baixo.

A nível de governo central existirão umas poupançazitas nos gastos. A nível de ministérios e serviços desconcentrados existirão umas poupanças maiores. A nível de câmaras municipais, vão ser cortes a doer. E as juntas serão como sempre as eternas sacrificadas, para quem nunca resta dinheiro. A decisão camarária visa sacudir do capote os problemas financeiros que tem, custe o que custar. Lavar as mãos, como Pilatos, e como Pilatos indiferente aos dramas que irá causar. Porque é pacífico o entendimento, para quem conhece as bibliotecas deste país, que algumas das oito “condenadas à morte” irão a médio/longo prazo encerrar por falta de verbas. E se assim não for, pelo menos terão todas elas mais agudizado ainda, se tal já é possível,  o problema com que as restantes se debatem: a morte intelectual: há quantos anos não se fazem compras de jeito nas Bibliotecas deste país? Entramos numa, e quase só encontramos ao dispor livros de há 2 anos atrás! Raríssimas novidades.

Se não estou em erro (e posso estar) as bibliotecas da câmara municipal de Lisboa, iniciaram-se algures por volta do ano 1929, com aquela que é hoje a biblioteca central. Desde 1929, com esforço e muita dedicação por parte dos seus profissionais, foi evoluindo, com altos e baixos, até ter a quase vintena de equipamentos que tem hoje e constituem a rede BLX.

Não importa aqui saber qual é o partido político do dr António Costa. Eu utilizaria estas mesmas palavras  quer ele fosse de extrema esquerda quer de extrema direita. Estamos a falar de uma determinada situação e não de política, sendo circunstancial que a decisão seja política neste caso. Ao decepar da forma que o vai fazer logo 8 bibliotecas de uma só penada, o actual presidente da câmara elegeu-se a ele próprio como o pior presidente da câmara de lisboa desde 1929!| e cuspiu no rosto dos profissionais que há anos, e alguns há muitas décadas vêm dando o melhor do seu esforço, sacrifício e privações, para engrandecer a Cultura em Lisboa.

Não sou fanático nem sou fã de “partilhas” na internet. Mas creio que em vez de gritos de histerismo, cenas de confronto físico e outras posturas menos sociais, ficaria mais bonito se todos os amantes da cultura em geral, se todos os leitores de todas as bibliotecas, se todos aqueles que irão ser prejudicados com esta decisão, se todos aqueles que não irão ser directamente prejudicados, mas acham errada a decisão usassem discretamente ao peito um laço negro um um emblema de um pequeno livro em negro, como forma de luto digno. Dignidade é a palavra chave para os bibliotecários! Toda a vida servimos! E servimos com dignidade, esperando muito pouco ou nada em troca. Se a cultura vai ficar mais pobre, se o luto tem de ser feito, que o seja de forma digna e de cabeça erguida! Não apelando a revoltas populares, mas não esquecendo também jamais o gesto deste presidente. Que pague nas urnas, a seu tempo, um pesado preço pela decisão. Que todo e qualquer amante da cultura com C grande, mesmo que seja ps,  vote noutro candidato ps, e nesse não.

Aos meus amigos de muitos anos dentro das BLX, aos conhecidos e a todos aqueles a quem a angústia da incerteza aperta o peito quero dizer-vos hoje: estou em pensamento convosco!